Crônica: Barbeiro ou alfaiate?

13/12/2021 11:26

Por Juviano Garcia


Crônica: Barbeiro ou alfaiate?

“O escritor, seja ele romancista, contista ou poeta, é, às vezes, como um barbeiro que apara delicadamente os pelos da ficção, na tentativa de torna-la parecida com a realidade. Outras vezes é como um alfaiate que, pacientemente, costura as bordas da imaginação às da realidade, com tanta perfeição que os seus leitores sentem certa dificuldade de identificar onde termina uma e começa a outra.” 

Octávio Máximo.

Dias atrás, assistindo um vídeo do humorista paraibano Jessier Quirino, intitulado “Barbeiro do Interior”, lembrei-me de Sr. Genésio de D. Adalula, o barbeiro com quem, durante quase toda a minha infância, cortei meu cabelo. Sujeito sério, calmo, correto e educado. E das histórias e estórias que lá ouvia nas manhãs de domingo, quando ia cortar meu cabelo, contadas por ele ou por alguns dos seus clientes, o que me deu a ideia de escrever o texto abaixo, sem a pretensão de me assemelhar ao alfaiate da citação acima. No máximo, um pequeno arremedo do barbeiro.

Nossa história se passa no já conhecido povoado Serra da Cotia, palco do conto “Promessa é Dívida”. Certo dia por lá apareceu um tal senhor João Gomes do Coité, com sotaque baiano, acompanhado de sua esposa, que o chamava Janjão e comprou uma casinha numa chácara, onde passou a cultivar mandioca, milho e feijão, principalmente. Dias depois abriu, na sala de sua casa, uma barbearia que, como toda barbearia de pequenos povoados, funcionava quase que somente aos domingos.

Naquele tempo e, nas cidades interioranas desse Nordeste de Deus, ninguém conhecia lâminas de barbear. Os homens mais abastados e que tinham habilidade para manejar uma navalha, faziam em casa suas barbas. A maioria, porem, tinha que ir, uma vez por semana fazer a barba com um barbeiro profissional. Janjão Coitezeiro, como ficou conhecido na Serra da Cotia, passou a ter uma clientela muito boa, que lhe garantia o sustento da família. Era um homem de poucas conversas, que jamais falava da sua vida pregressa, nem tecia qualquer comentário ao que se passava com as pessoas do local.

Algum tempo depois Zé de Aninha Fateira ao voltar da feira na sede da cidade, comentava com os vizinhos que ouviu dizer que o Janjão fora parar em Serra da Cotia, fugido da polícia de Conceição do Coité, onde morava, por ter assassinado um comerciante da cidade que houvera estuprado sua irmã. Essa história porem nunca foi confirmada ou desmentida por ninguém, mesmo porque não houve no povoado quem ousasse comenta-la com Janjão.

Em junho daquele ano, próximo da celebração das festas de São João, estava Janjão fazendo a barba de Totonho Fonhen, segurando a ponta do nariz deste para raspar o seu bigode, quando um garoto na rua soltou uma bomba. No susto Janjão decepou com a navalha a ponta do nariz do pobre Totonho. As más línguas comentavam a boca miúda que o barbeiro se assustou pensando ser a bomba, um tiro desferido pela polícia baiana a sua procura.

No quintal de casa Janjão criava galinhas e guinés para fornecer ovos para consumo próprio e, aos domingos, uma panelada de galinha ao molho pardo. O responsável pela proliferação do plantel avícola era o galo Tenório, vermelho como camarão torrado, com porte de peru bem criado. O mimo de Janjão. Pois não é que num fatídico sábado madrugou e Janjão não ouviu a maravilhosa música com que Tenório lhe acordava diariamente. Mal a barra começou a aparecer no nascente Janjão correu para o quintal a procurar por Tenório. Nada. O galo sumiu como num passe de mágica. A princípio suspeitou que alguma raposa tivesse comido seu galo. Foi investigar embaixo da mangueira que servia de poleiro para as aves. Nenhuma pena, nenhum sinal de ataque, sangue, ou coisa parecida.

A tristeza se abateu sobre o pobre barbeiro que baixou a cabeça, olhando para o chão e lá estava a explicação para o desaparecimento do Tenório. Pegadas humanas. Alguém tinha roubado o seu galo. Como descobrir quem teve tamanha ousadia? Depois de alguns minutos pensando, Janjão estabeleceu a estratégia que usaria para pegar o gatuno.

No domingo lá estava Janjão na barbearia, taciturno como sempre ou mais ainda, cortando cabelos e fazendo barbas. .Enquanto escaneava a cara de cada cliente, fosse ele rico, remediado ou pobre, ao passar a navalha na região do gogó, Janjão, discretamente, soprava em seu ouvido: “ah! Por esse gogó passou meu galo.”. Alguns pensavam: “esse cabra tá ficando doido”.

Já era por volta do meio dia, Janjão perdia a esperança de descobrir o autor do furto, quando sentou na cadeira o vereador Damião da Mata, representante do povoado no legislativo da cidade, homem de bem, dedicado à causa dos seus munícipes. Janjão, nem de longe, suspeitaria do edil, mas, por força do hábito, repetiu o mote ao seu ouvido, no momento em que escaneava o pescoço do vereador. “Ah! Por esse gogó passou meu galo.”

Nesse instante Damião empalideceu, segurou firmemente a mão do barbeiro e gritou: “pelo amor de Deus, seu Janjão, não me mate, o Tesouro municipal vai pagar seu Galo”.

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